A relação entre a leitura e a escrita

  • A leitura e a escrita como vivência

Acredito que a leitura e a escrita caminham juntas. Desse modo, podemos pensar na relação que existe entre esses hábitos e, também, na importância de cultivá-los em nossas vidas. O escritor Valter Hugo Mãe reflete sobre a relevância e o impacto que a leitura, desde a sua adolescência, exerceu em sua vida:

O escritor destaca que a leitura continua tendo esse significado. Para ele, “…os livros continuam a ter esse estranho objetivo de preencher espaços vazios…”. Nesse sentido, a escritora Francine Prose ressalta que quando nos tornamos leitores “…começamos a querer informação, entretenimento, invenção e até verdade e beleza”. Assim, a leitura nos faz companhia, nos instiga a novas ideias, nos desperta a criatividade e nos impulsiona a viver.

Acredito que a relação leitura e escrita acontece enquanto lemos. Essa sinergia ocorre pois o ato de escrever pode vir a ser tão rotineiro e tão revelador quanto o de ler. Como ensina Rosa Montero “quando se escreve está buscando entender alguma coisa”, mesmo que esse entendimento seja dirigido a nós mesmos.

Ao contar como tornou-se escritora, Prose enfatiza que “…como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendo e lendo, tomando os livros como exemplo…”. Porém, não é preciso ser um escritor profissional para conseguir praticar a escrita.

Ou seja, podemos escrever por ansiar compartilhar o que pensamos ou sentimos, ou mesmo por buscar uma compreensão melhor dos acontecimentos do mundo ou do nosso interior.

Assim, a leitura e a escrita são práticas que podem fazer parte do nosso cotidiano de forma mais “natural”, como um dom ou um talento e, ainda, de forma mais “intencional”. Ou seja, quando nos conscientizamos da importância desses hábitos, podemos cultivá-los de forma proposital em nossa rotina.

De um jeito ou de outro, quando uma pessoa enxerga a relação entre a leitura e a escrita compreendendo a relevância e a diferença que pode fazer em sua vida, sua compreensão sobre si e sobre os acontecimentos externos são afetados intensamente.

Na medida em que passamos a experienciar o mover que a leitura e a escrita nos provocam, não passamos incólumes a elas. Como testifica Mirna Pinsky:

“…os desafios das circunstâncias consumiam toda minha energia. Ler e escrever renovavam essas energias, eram fontes de prazer e espaços pessoais secretos, individualizados, que traziam alento e equilíbrio. [Ler era insumo, escrever era produto.] E foi nas asas dessa dupla experiência que minha sensibilidade deslanchou. Com as leituras de romances, aprendi a ver o mundo de fora; com os exercícios da escrita, fui tateando o mundo de dentro.” (PINSKY, 2017, p.85)

  • A leitura e a escrita como atos terapêuticos (e minha maneira de praticar essa relação)

Eu converso com os livros que leio. Acho que por isso, ainda que tarde, percebi que eles já me salvaram em momentos significativos da minha vida. Os meus diálogos com livros acontecem por meio da escrita: enquanto leio vou “respondendo” nos cantos das páginas.

Para diálogos mais longos, recorro aos cadernos. Então, já dá para perceber o quanto ainda sou da era analógica! Amo um livro (de papel mesmo)!! Também adoro canetas, lápis, cadernos, esferográficas, marcadores de texto e afins. Adoraria ter uma livraria/papelaria! 

Essa compreensão sobre mim mesma foi apenas uma das quais me dei conta nos últimos tempos. É muito interessante “descobrir” coisas que sempre estiveram dentro da gente mesmo sem a gente ter consciência delas. Confuso isso, mas é uma verdade para mim. Parece meio Freud demais, porém, é algo que tem acontecido comigo.

A leitura estimula meus pensamentos. Indo ao encontro dessa ideia, Valter Hugo Mãe defende que “…a leitura dos livros nos muda, nos convida a um pensamento mais profundo…”. Por isso, aprendo muito com as pessoas que estudaram e escreveram, que criaram e escreveram, que imaginaram e escreveram, que fizeram tudo isso junto e conseguiram colocar em palavras tanto conhecimento, tanta criatividade, tantas ideias e descobertas.

Acontece muito de eu relacionar um livro com outro. Por isso, tenho tentado escrever em fichas separadas por assuntos. Assim, coloco as frases com as referências dos autores que eu entendo que tratam do mesmo objeto, ou que se complementam em seus raciocínios, em seus conceitos, em suas opiniões.

A partir dessa pequena bagunça, faço minhas conjecturas. Muitas vezes viajo nas minhas reflexões. Fato é que tudo isso me embasa para que eu consiga pensar sobre meus problemas internos, sobre os eventos da minha vida. Dessa forma, algumas dores (aquelas impossíveis de serem suprimidas) tornam-se mais suportáveis.

  • A leitura e a escrita como atos coletivos

 Além disso, essas práticas possibilitam uma compreensão melhor do outro. Ou seja, uma compreensão melhor de mim mesma e do outro. Acredito que esse acontecimento seja essencial para uma vida melhor, tanto no âmbito individual quanto no coletivo. Afinal, como disse Javier Cercas, “…o coletivo é uma dimensão do individual, sem entender os outros não é possível entender a si mesmo…” (ou seria ao contrário??).

 Entendo que esses recursos ainda tenham pelo menos mais um proveito: ajudam muito a entender acontecimentos políticos e sociais a partir deste lugar comum, isto é, a assimilar os eventos mesmo sendo uma pessoa comum, e não uma especialista em política, economia ou ciências sociais.

Desse modo, é possível abrir a mente para novas ideias e formar um pensamento crítico diante dos fatos que acontecem (ou que se repetem?!) no mundo, e que se dão de forma tão acelerada!! Pensar criticamente, mas com generosidade. Será que essa é a maneira de nos salvarmos e de salvarmos o mundo??!!

A partir dessa visão, a leitura e a escrita podem ser hábitos transgressores e, também, libertadores. Como no caso do personagem Winston, do clássico de Orwell, seu primeiro ato de rebeldia foi ter a simples ideia de comprar um diário e começar a escrever:

  • A relação entre a leitura e a escrita: uma provocação ao diálogo

Portanto, esse espaço pretende ser um estímulo à leitura, à escrita e ao diálogo. Uma extensão das minhas conversas com os livros e, ainda, com os artigos, os posts e os enunciados que impulsionem boas e novas ideias. Evidente que acrescento minhas percepções, e ao publicá-las, elas se abrem para outros entendimentos, para outros sentidos. Afinal,

“Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá as festas de renovação. Questão do grande tempo.” (BAKHTIN, 2011, p. 410)

Desta forma, a depender do interesse das pessoas, diálogos poderão acontecer aqui, mas sempre com respeito, com generosidade e na medida do possível, com um pouco de humor. No próximo post, pretendo dar continuidade nesta reflexão sobre a relação entre leitura e escrita resgatando leituras antigas como, por exemplo, o livro 1984, esse marcante livro de George Orwell.

  • Na real: histórias inspiradoras

Essa imagem trata-se de uma história real. É um relato de um morador de rua, o Kenedy, e foi publicado na página do Instagram da ONG SP Invisível. Disponível em: https://www.instagram.com/spinvisivel/.

relação-leitura-escrita-histórias-inspiradoras

Livros citados nesse post:

Excelentes leituras, e escritas também!!!

5 comentários em “A relação entre a leitura e a escrita”

  1. Amiga, sabia de seu ávido prazer pelos bons livros, mas
    Essa foi a primeira vez que li Ana Rosa. Acho que esse nome cola! 🤣
    Foi uma boa surpresa o seu texto. Adorei mesmo e sugiro que esse Blog seja uma espécie de ensaio para o seu primeiro livro.
    Parabéns!

    Ah, adorei essa parte, fala de mim tbem:
    “Essa compreensão sobre mim mesma foi apenas uma das quais me dei conta nos últimos tempos. É muito interessante “descobrir” coisas que sempre estiveram dentro da gente mesmo sem a gente ter consciência delas. Confuso isso, mas é uma verdade para mim. Parece meio Freud demais, porém, é algo que tem acontecido comigo”.

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  2. E então ontem e hoje, eu terminando de ler 1984, não parava de pensar em você! E agora venho ler o primeiro texto do seu blog. “Cristocidência”.

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